Selecione uma Exposição
Adrianna Eu
25 de agosto até 16 de outubro
Galeria Luciana Caravello
Rua Estados Unidos, 2169
Quão estranhos são os relógios que insistem que o tempo é um só.
Dividimos os dias em horas, as horas em minutos, os minutos em segundos, e confiamos aos ponteiros a tarefa impossível de medir algo que nos atravessa. Inventamos uma régua comum para aquilo que jamais se repete da mesma maneira em dois corpos. Porque há segundos que duram para sempre, como aquele em que alguém diz que não te quer mais, e há horas que desaparecem antes mesmo que possamos percebê-las, como aquelas em que finalmente reencontramos quem passamos tanto tempo esperando. Mas o relógio sempre continua seu percurso indiferente, um segundo depois do outro. Dentro de nós, no entanto, o tempo se estica, dobra, se enrola, e dá voltas.
É nessa distância entre o tempo contado e o tempo sentido em que Adrianna Eu constrói a exposição “Render-se ao tempo”. Se o relógio procura organizar a passagem das horas, as obras reunidas nesta exposição parecem fazer o movimento contrário: desorganizam sua medida para devolver parte de sua instabilidade. Aqui, ela não é linha, mas é a própria matéria. Um novelo emaranhado de nós e pontas soltas, capaz de se estender para trás e para frente.
Talvez por isso tantas palavras atravessem a exposição: quando, lembrar, instante, momento, por enquanto, adiar, depois, antes, maturar e outras. São palavras que tentam falar do tempo sem propriamente medi-lo. Nenhuma nos diz quantos minutos se passaram. Elas falam do antes, da espera, da permanência, da possibilidade, daquilo que ainda não aconteceu ou que, mesmo tendo acontecido, continua acontecendo. Falam de um tempo que o corpo sabe antes que o relógio consiga anunciar.
No centro da exposição, essa diferença ganha corpo. Na obra epônima, um casulo de fios, rendas, linhas e lãs envolve a cadeira do ateliê da artista, cercada por dezenas de despertadores. Todos marcam seis horas. Diante da insistência dos relógios em afirmar uma mesma hora, a obra propõe justamente o contrário. Um espectador por vez é convidado a entrar, sentar e permanecer. Por quanto tempo? A pergunta talvez seja justamente o que precisa desaparecer. Dentro da carne do tempo, segundos podem se alongar e minutos desaparecer. Render-se, aqui, não é sucumbir à passagem, mas desistir de controlá-la. Aceitar, por um instante, que aquilo que sentimos subverte qualquer tentativa de medida
Há, entretanto, momentos que se afirmam na nossa cronologia. Instantes que dividem uma vida entre o “antes” e o “depois”. Momentos como nascimentos, primeiros encontros, despedidas, perdas; acontecimentos que talvez tenham durado poucos minutos, mas que permanecem muito depois dos ponteiros avançarem. São os segundos importantes e as pequenas horinhas, que quando acumuladas constituem uma vida inteira dentro deles.
Adrianna desloca ainda mais a temporalidade da exposição, com o tempo da autoria ao apresentar uma série de fotografias feitas por sua mãe que evidencia as dobras do corpo como superfícies que carregam visivelmente a passagem dos anos, enquanto seu inverso parece preservado dele. Nem sobre uma mesma pele o tempo passa da mesma maneira. A dobra guarda dois lados de uma mesma matéria, duas superfícies vizinhas, uma que ficou marcada pelo tempo que a atravessou e outra que o suspendeu.
A memória e os afetos também embaralham e perturbam os relógios. São formas de desobedecer à linearidade e de medir não a sucessão, mas a intensidade. Há o tempo de amar, o tempo de perder, o tempo de se despedir e o tempo delicado onde algo pode se refazer. O tempo da delicadeza. Cada obra na mostra parece reverberar que aquilo que chamamos de tempo talvez seja apenas uma tentativa de dar medida a experiências imensuráveis Falamos dele justamente porque sabemos que passará.
Quanto tempo foi necessário para que você estivesse aqui, agora? E quanto tempo este instante poderá permanecer com você? Talvez seja esse o paradoxo que Adrianna Eu nos oferece: aquilo que temos de mais concreto é também aquilo que menos conseguimos segurar. Passamos a vida tentando contar o tempo, economizá-lo, recuperá-lo, perdê-lo, lembrá-lo. Construímos relógios para nos convencer de que sabemos onde estamos. Mas o tempo não está passando diante de nós, ele está passando em nós. E nos resta, então, apenas por este momento, abandonar os ponteiros.
Lara Maia
Você pode cancelar a assinatura ou alterar suas preferências a qualquer momento, clicando no link em nossos e-mails.