Exposição individual do artista Marcelo Macedo
Texto por Eduarda Freire
08 de novembro de 2023 até 13 de janeiro de 2024
Luciana Caravello Galeria de Arte Contemporânea
O excesso propõe um contraponto à necessidade.
Marcelo Macedo faz do descarte veículo de acesso à fortuna das promessas vazias. Glorifica a matéria rejeitada ao escavá-la até encontrar a gema preciosa velada pela ação do abandono, contrariando dessa forma uma inutilidade até então atribuída. Toda matéria apropriada carrega um histórico e um compromisso: passado e futuro.
Em seu ateliê, ao perder a noção de tempo, certifica-se do presente, contraditoriamente, sob o sentimento de retornar à infância. Basta ajustar a mira certa (ou ponto cego), que adentra um mundo onde todas as possibilidades reúnem a satisfação do momento com uma nostalgia precoce. Esse impulso condutor é o que chama de Comando Miragem. Uma ilusão sedutora que reafirma a camada de espiritualidade inerente ao ato de criar. A liberdade da espiritualidade, livre de dogmatismo, dignifica a realidade através de suas razões subjetivas.
No convívio diário com os filhos, Macedo percebe a natural e inesgotável insistência das crianças em repetir para progredir. Cair e levantar são a dinâmica primordial da evolução. De forma semelhante, a repetição, com a finalidade da obtenção de plenitude, se apresenta em cerimônias esotéricas: a repetição mântrica de cantos entoados; a fragmentação de vitrais miraculosos; a padronagem dos tapetes mágicos. Apesar de contornarem a pretensão religiosa, as composições de Macedo convidam a contemplar uma camada sutil da existência, um refinamento inesgotável daquilo que se propunha exaurido. Iludem os olhos, distorcem dimensões e desafiam a câmera fotográfica, servindo como lentes de efeito que permitem ver além do que está ali.
Marcelo Macedo insiste em voltar atrás para olhar para dentro. Ao mesmo passo, um texto poético se configura ao dobrar a linha e formar o verso. Como o reflexo de uma imagem invertida em uma miragem, se dobra e expõe sua face interna, auto-referente, e se expande naquilo que se reconhece. Essa quebra, que evidencia o contrário, cria uma unidade rítmica. Se no concretismo inicialmente buscava-se explorar a materialidade da linguagem textual, Macedo segue em busca pela materialidade de um silêncio anterior ao desejo de expressão.