Exposição individual de Joey Seiler
04 de outubro até 14 de novembro de 2025
Galeria Luciana Caravello
R. Estados Unidos, 2169 – Jardins, SP
Desenho como rastro, pintura como percepção
Sisyphus Risus, nova individual de Joey Seiler, lança a obra do artista do Rio de Janeiro num aprofundamento vertical das potencialidades do desenho, da pintura, do tridimensional e da aproximação com outros meios como a instalação e a performance. Ao optar por linguagens em campo expandido, mergulha num tom polissêmico em sua produção, resultando assim na realização de peças híbridas e de fluidas demarcações. Nesse jogo de cromatismos, volumes, planos, rebatimentos, projeções e vestígios, o olhar ganha uma abordagem menos linear e estanque.
Essa característica polimórfica tem tudo a ver com o título escolhido para o recorte. Sisyphus Risus vem de O Mito de Sísifo (1942), de Albert Camus (1913-1960). A antiga história é conhecida. Na mitologia grega, Sísifo rola a pedra montanha acima e, sempre, ela não se sustenta e acaba voltando para o ponto inicial, bem abaixo. O personagem então tenta, num movimento perpétuo, lograr o cume, sem sucesso. Na visão existencialista do autor, o absurdo dos repetidos cenários guarda semelhança com o cotidiano do homem comum, que não vê sentido na vida. Desdobramentos posteriores levam a crer que uma saída seria a revolta – não o suicídio, por exemplo.
Seiler transporta a perspectiva filosófica para a própria visualidade. Há um horizonte contraditório na produção do artista – riscar até o último respiro da caneta esferográfica; o papel guardar os rastros da ‘existência’ daquele material; sobrepor a planaridade das placas de acrílico pode gerar um mix infinito de cores que se esvaem no próprio relacionamento com o ‘mundo’ e a decorrente materialidade.
Os próprios atributos dos suportes são continuamente questionados. O desenho não é um traço gráfico do grafite (ou uma mera caneta) aplicado sobre um papel, e sim se conecta muito mais ao dado de construção e desgaste, parecendo então um gesto mais fulcral. E a pintura passa longe da aplicação de pigmentos, com pincel, sobre uma superfície, cuja carnalidade da cor é obtida por sucessivas camadas pictóricas. A cor é sim aqui criada pelo caráter reflexivo do acrílico, em uma operação que se assemelha a um vazamento ou uma contaminação da cor/luz para o ambiente (que provoca a tridimensionalidade nas unidades). Nisso, Seiler atesta a influência de paradigmas da op art numa faceta importante do corpus de obra. E os elos com a performance se ligam à serialização dos atos, que ocorrem até o esgotamento (mais dos materiais que os limites físicos de quem faz, mas não se pode duvidar do desgaste humano nas repetidas tarefas).
“Nos desenhos, a repetição do rabiscar, no gesto, dia após dia, e quando termino, simplesmente começo outro. Especialmente nas obras maiores de caneta, o progresso pode parecer invisível” 1, conta o artista. “São trabalhos que não são pinturas, mas também não se encaixam como desenhos.” 2 Para embaralhar mais sua práxis, nova leva de trabalhos vai agora do acrílico para o papel. Uma investigação de processo tal como se a gravura viesse em direção à matriz. Seiler lida com dados metalinguísticos e surgem mais efeitos de profundidade e tridimensionalidade.
Presente em A Quarta Geração Construtiva no Rio de Janeiro (2023), com curadoria de Paulo Herkenhoff na FGV Rio, Seiler abriga mais influências de artistas próximos na formação, que passou pela Universidade de San Diego, nos EUA, e por Londres (mestrado na Goldsmiths), no Reino Unido. Anteriormente mais atento a nomes como Mark Rothko (1903-1970) e Franz Kline (1910-1962), o foco mais tarde recaiu sobre a obra de Robert Irwin (1928-2023), Larry Bell e Craig Kauffman (1932-2010). A cor/luz de Seiler pode ressoar ecos de nomes mais vistos por aqui, como a fenomenologia das experimentações de Le Parc, Cruz-Díez (1923-2019) e até Anthony McCall.
Por fim, a contemporânea investigação da cor/luz de Joey Seiler vai esculpindo, desenho a desenho, pintura a pintura, uma espécie de paisagem subjetiva contínua. Ela propicia um movimento particular, de obra por obra criada paulatinamente num ambiente de ateliê, que vem a gerar tal corpo incomum, entre o etéreo e o sólido, o vazio e o cheio, o imaterial e o permanente, o não preenchido e o acumulado. Tal qual nossa finita e precária existência.
Mario Gioia, setembro de 2025
1.Entrevista do artista com o autor, setembro de 2025.
2. IDEM.