“(…) Três lascas de tempo. Meu próprio tempo em lascas: um pedaço de memória, essa coisa não escrita que tento ler; um pedaço de presente, aqui, sob meus olhos, sobre a branca página; um pedaço de desejo, a carta a ser escrita, mas para quem?” 1 O conjunto de cacos retrabalhados por Luana Lins, na fragmentação de uma urbanidade colapsada, resultado de uma especulação imobiliária desumana e de programas de desmemória perpetrados por agentes de diversos campos de atuação – como o omisso poder público e os numerosos defensores, em variados graus, de um livre mercado que passa por tudo, entre outros. No persistente labor de ateliê, a artista ressignifica essas lascas do tempo e espaço de hoje (as descritas por Didi-Huberman vieram depois de ele visitar um lócus icônico pelo horror). E nós, por sua vez, não temos parceria nos pantagruélicos centros urbanos que vamos criando, vivendo e morrendo pouco a pouco, onde existem outros emblemas também terríveis?
No recorte que gerou Verdades construtivas, ensaios de encanto, as cidades em desmanche e numa permanente conflagração são também objeto da investigação visual de outros artistas, como o carioca Antonio Bokel. Quando tinha ateliê no Rio Comprido, bairro do RJ que foi desfigurado com a implantação de uma via elevada para veículos, ele se deparou com um art book com os projetos de Kenzo Tange (1913-2005). Arquiteto japonês vencedor do Pritzker, a mais alta láurea nesse campo, seus projetos reuniam o vernacular da cultura do país oriental junto de uma ousadia formal para esculpir uma nova modernidade. Bokel, então, utiliza essa imagética dessa vanguarda límpida como matriz para uma intervenção, não domesticada, gestual, própria. As gravuras desdobram insurgências e revoltas a partir das ferramentas da visualidade contemporânea.
Verdades construtivas, ensaios de encanto surgiu a partir do convite de Luciana Caravello para uma proposta que levasse em conta o grupo de artistas representados por ela e que se concretizasse no novo espaço da galeria, em São Paulo. As obras, em grande parte, são de pequeno e médio formatos e trazem também peças de artistas de outros espaços e não representados. Nesse levantamento, dois grandes polos se sobressaíram: um, de artistas que usam a geometria como métrica relevante de sua poética; e, outro, em que a organicidade e um caráter rizomático funciona como lastro de produção. Como se pode imaginar, a geometria é sensível e não é dogmática, e o orgânico não deixa de se instalar no que era somente ordenado e colocado a priori.
Exemplo da mescla entre imagem e urbe é a obra de Malu Tigre, cujas séries, a partir de uma frágil materialidade, parecem se referir a paisagens algo assépticas e neutras dos grandes aglomerados de hoje. O fazer é fulcral no processo da artista, já que as colagens low fi têm origem muitas vezes na basura incontável descartada por essa sociedade de consumo em que estamos imersos.
O conjunto desses trabalhos iniciais na mostra se relaciona agora com o site specific da série Pacto, de Edu Silva, disposto numa das quinas da sala cubo branco que sedia a coletiva. O tridimensional não conformado de Silva cria fricções em leituras estanques da história da arte. É como se o artista, com o agregado de papelão e mármore, pleiteasse perspectivas mais inclusivas e plurais no nosso construtivo, por vezes tão ligado a agrupamentos e regras mais estritas. A junção da tibieza do papelão com a almejada nobreza do mármore aqui se liga a questões identitárias, de memórias mais cotidianas e de uma proposição de quebrar certo elitismo tão característico de sistemas de arte.
Luiz 83 une a experiência da arte das ruas, incluindo o período transgressor da pichação, a abordagens, experiências e repertório que adquiriu tanto no dia a dia de ateliê como no ofício de montagem de exposições. Tridimensionais que evocam as grafias da rua e provocam o surgimento de novas gramáticas e obras bidimensionais feitas com materiais comuns, como o guache, parecem construir uma nova geometria, nada rígida e mais permeável aos rumos do acaso e do acidente de poéticas processuais. Originário do Maranhão e radicado no Rio de Janeiro, Joelington Rios utiliza imagéticas extraídas de arquivos históricos para questionar circuitos de variadas ordens, em uma prática multiforme em que a fotocolagem tem especial atenção.
Andrea Brown percorre tanto em obras de parede quanto em peças de chão uma jornada de desenho expandido e de arquiteturas impossíveis. Com formas e cromatismos severos e não ostensivos, os bidimensionais utilizam sobreposições, rebatimentos e projeções a partir do próprio material que usa e da aplicação das linhas que expande o quadro. Assim, joga com as possibilidades da colagem e até do escultórico contemporâneo. Nos objetos mais propriamente tridimensionais, há uma sensação de esgotamento e impossibilidade na atmosfera desses abrigos criados que pouco têm de proteção e afeto (apesar de limpos, retos e ordenados).
Daniel Mello também lida num vetor de pintura expandida e, a partir das vivências de ateliê e das derivas pela contraditória e conflitiva região central de SP, também reúne cacos da cidade grande e, num esforço cotidiano, cria composições plásticas cheias de amor e fúria. É como se tivesse essa urbe em perpétua crise como a própria materialidade da obra, extraindo, paulatinamente e com cuidado, fragmentos que expõem a pulsão desses lugares, vibrantes e mortais, resilientes e precários. O carioca Marcelo Macedo também retrabalha até o esgarçamento as lascas urbanas e se detém numa lida diária e persistente construindo uma geometria mais flexível, que pode se abastecer dos resíduos das caçambas das grandes cidades como das bancas de feiras de antiguidades e suas (des)memórias cristalizadas em itens de pequena monta. Joey Seiler utiliza as matrizes do construtivo, mas sua pintura como percepção e seu fazer em série se relacionam mais a práticas do pós-expressionismo abstrato ianque. Também ligado à arte de rua, Antonio Ton assina obras que guardam despojamento e ferramentas de leitura mais direta.
Yohana Oizumi vem a ser um bom nome para abrir as discussões do encantatório dentro da mostra. Com a tríade de Guardiões, a artista tem produção numerosa e de difíceis determinações rígidas. O espiritual fundamenta a obra, no entanto práticas ligadas a correntes da arte conceitual são importantes, numa poética polissêmica, que tem espaço para o tridimensional, a performance, a pintura e o desenho, entre outros meios. O conjunto de peças cujo material é oriundo de tapetes de um prédio fechado por anos e que virou lócus artístico na região central de SP de certa forma baliza Verdades construtivas, ensaios de encanto e lança um ar de enigma ao recorte.
A paisagem fornece à seção mais conectada a vetores da natureza algo de fluidez. Ao mesmo tempo, traz outras indagações a meios com muito lastro como a pintura. Interessante em como artistas bastante distintos, o carioca Fernando Leite e o emergente Rafael Prado, utilizam o pigmento como elemento matérico para levantar temáticas não similares. Prado, que vem de Rondônia e se radicou no RJ, utiliza sua paleta para exibir o homem amazônico e seu cotidiano, sem esquecer do verde, contudo dando formas, volumes e cores a quem está no chão da floresta. Já Leite extrai do fotográfico uma imagética que se alimenta das possibilidades do pictórico e que, em movimentos não bruscos, se distancia do verismo e de práticas não dinâmicas.
Patrizia D´Angello colhe registros diversos do presente e os torna fonte primária da pintura, em especial com o óleo, mas também com a aquarela e outros materiais. A partir da matéria comum, com destreza tira do ordinário o que ficaria batido e pouco perceptível. Nessa faina encantatória do cotidiano, traça paralelos com outras conduções do figurativo e vai criando joies de vivre, para utilizarmos o título de uma de suas telas. Viviane Teixeira também utiliza massas de cor, contudo o universo de referências junto do fazer diário faz dela um nome absolutamente particular, numa espécie de jornada de fabulação.
Duas jovens pintoras ajudam a formar o recorte de agora algo mais doce e de apelos sensuais. As paisagens de pequena monta de Yasmin Guimarães usam o fundo como elemento dialógico com a delgada figuração inscrita na superfície da tela. Céus e horizontes entram delicadamente na paleta da artista e tornam nada olvidável o prazer de olhar cada obra. Já Isabella Bianchi explora o lúdico e o deveras comum no pequeno fazer das pequenas peças pictóricas. Numa pintura expandida que atinge o objeto e a colagem, como pensamento, manejar e jogar em produções diminutas valorizam cada gesto de autoria e nos auxiliam a sair da letargia e do solipsismo.
“Um corpo é imaterial. É um desenho, um contorno, uma ideia” 2 Uma das sentenças de Jean-Luc Nancy serve como introito a obras que escorregam da leitura fácil dentro do recorte proposto, e as peças de Sofia Saleme se inscrevem em tal descrição. Há o políptico fotográfico em que a artista, num empreender de corpo-território, se imiscui com os traços ocidentais entre o sagrado de um cemitério budista, e também a algo fragmentária e disforme máquina de escrever com cabelos a pender para o chão. Assim como os trabalhos de Oizumi, tais obras criam uma espécie de curto-circuito, positivo, em Verdades construtivas… e discorrem sobre o feminino sem bulas literais.
Gabriel Pessoto, tanto em peças de pequena escala como em tridimensionais, reconfigura o doméstico para dias hiperconectados. Nessa fadiga mental decorrente do excesso de telas, o artista subverte noções batidas de gênero na criação de bordados artesanais fundamentados no mais que liquefeito repertório de imagens digitais. Reginaldo Pereira, com destacada economia formal, utiliza uma faca como centro de sua obra e deixa aberta a ressonância desse poema visual que rima com o cotidiano e não deixa de abrigar questões sociopolíticas. Artur Ferreira elege o arcaico como catalisador de uma poética estranha, em que a imagética de outrora provoca leituras renovadas em trabalhos de agora.
E Mariana Whately pode fechar com êxito essa leitura inicial de Verdades construtivas, ensaios de encanto com a minúcia e a delicadeza das peças de cerâmica que ganham cromatismo nada neutro com os bordados. Numa prática multidisciplinar, o vetor manual e de transformação material da cerâmica – que, do basilar barro, vai após a queima se tornar algo mais liso e um objeto de fruição artística – é perpassado, atravessado e preenchido, num labor tátil. seriado e que beira o obsessivo, por linhas que remetem a um desenho em campo expandido. Quanto mais acumulados tais traços, mais a cor fica fulcral no resultado plástico – que também dialoga com meios como a pintura e a performance, por exemplo. Talvez seja uma boa síntese das 23 poéticas marcantes e que não transigem na exposição coletiva, um elogio de autoralidade em tempos que cercam a anomia.
Mario Gioia, novembro de 2025
1.DIDI-HUBERMAN, Georges. Cascas. São Paulo, 34, 2019, p. 10.
2. NANCY, Jean-Luc. 58 indícios sobre o corpo. Revista UFMG, Belo Horizonte, v. 19, n. 1 e 2, p. 43, jan./dez. 2012.
* Agradecimentos às galerias André, Luis Maluf, Movimento, Quadra, Tato e Verve.