Tudo está acontecendo

Exposição individual do artista Ricardo Villa
Texto crítico por Marcio Harum
19 de novembro até 17 de dezembro de 2022
Gema: Rua Venezuela 365 – Jardim América, SP

A exposição TUDO ESTÁ ACONTECENDO de Ricardo Villa empresta título de uma obra sua lançada como NFT em janeiro de 2022 pelo marketplace Tropix. Como uma anêmona do mar, as palavras de S/t #3: Tudo está acontecendo movem-se na tela diante de nossos olhos em animação, apontando variáveis de uma indagação que significa algo no sentido de: a arte na atualidade responde a uma experiência social cada vez mais mediada pelo dispositivo, pela modelagem matemática, por estatística e código, ou não? Juntamente a este trabalho, vemos em exibição S/t #1: Operário não tem pátria e S/t #2: Truth is incomplete. A série de três vídeos S/t # é calcada na elaboração gráfica da palavra e imagem em movimento. Busca questionar acerca do nosso lugar como espécie em meio ao presente momento histórico. Em uma era de hegemonia das narrativas econômica, enquanto vai sendo constantemente reafirmada a construção de mundo, o artista Ricardo Villa reflete sobre a ideia de civilização, ao chamar a nossa atenção para outras possibilidades de organização das mentalidades em um planeta cada vez mais ciente de sua própria vulnerabilidade. O conjunto de três animações revela sentenças curtas que desestabilizam, como poema haikai, a sensibilidade da concisão – e por esta mesma razão talvez seja o caso de S/t #1: Operário não tem pátria surgir traduzida para seis idiomas diferentes. Com estas três obras, Villa procura escapar de uma sucessão linear de ordenamento tipográfico dos fatos, a que impõe visão longitudinal, uma coisa, palavra ou imagem correndo uma após a outra – e não como acontece naturalmente, quando a percepção de fenômenos é ativada pela simultaneidade em diversas partes temporais e espaciais do todo.

A série Cruzeirinho de 2022 é integralmente confeccionada por cédulas de dinheiro fora de circulação e dividida entre relevo#, modelo# e ornamental#. As peças de 70 X 70 cm de relevo#1, #2 e #3 apresentam uma divertida semelhança arquitetônica com os elementos vazados de fachadas e interiores chamados popularmente de cobogós. De uma simetria cartesiana, os trabalhos insinuam formas perfeitas de colméias, vitrais e olhos mágicos. Já a colagem de papel moeda de 80 X 80 cm de modelo#2 remete a um caleidoscópio às cegas, como se o túnel do aparato ótico estivesse ao contrário, sendo mesmo assim a atração principal – e o foco central fosse o buraco negro através do qual nada se enxerga. A última
delas é ornamental#6, um origami inteiriço também em papel moeda de 40 X 50 cm, resultado de conhecimentos tradicionais de manualidades orientais por parte do artista. Cada um é um sonho na cabeça do outro de 2018 é a obra-âncora da exposição TUDO ESTÁ ACONTECENDO. O pensamento por trás da pesquisa artística e o universo das relações do capital que afetam a vida e a produção de artistas no sistema de arte são a tônica deste trabalho. Distribuídas pelo espaço expositivo, quatro esculturas de cabeças fracionadas de Karl Marx feitas de resíduo de demolição, cimento, areia e resina são dispostas pelo chão como se estivessem enterradas vivas.

Brasileiro #1 de 2018, é um artefato tecido manualmente sobrepondo processos e fragmentos de duas outras bandeiras – como se a manufatura pudesse haver hasteado realidades paralelas mimeticamente – a do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil + a brasileira. Por fim, fechando a mostra, vemos a obra NFT Regresso de um proprietário, 2022, o instigante GIF em loop da gravura de mesmo título, do livro em três volumes com registros de cenas do Brasil no início do século XIX – “Viagem pitoresca e histórica ao Brasil” – publicado na França de 1834 a 1839 por Jean-Baptiste Debret (1768 – 1848). Debret participou da missão artística francesa que veio ao país em 1816 à convite do imperador D. João VI, e como docente foi um dos fundadores da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, criada por decreto real em 1816, implementando assim oficialmente a educação artística no Brasil. A primeira bandeira independentista é de autoria de Debret, e uma de suas obras inspirou a definição das cores e a geometria da bandeira atual. Villa retoma com força a importância desta gravura para a alma brasileira, pois com a chegada da corte, houve o início das viagens
de expedição de artistas e naturalistas estrangeiros.

oTais impressões moldaram o imaginário nacional, e formulam um agudo parecer crítico acerca de aspectos da vida coletiva em sociedade, destacando-se vergonhosamente até os dias de hoje más práticas civis voltadas ao preconceito e racismo por parte de personagens autoritariamente estratificados e hierarquizados. O GIF da gravura de Villa põe foco no caráter da continuidade dos negócios coloniais e imperialistas de segregação pelos mesmos interesses de poder político do século retrasado.

Por Marcio Harum
novembro de 2022

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