Durante a residência artística realizada para a produção da exposição ocorrida no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, em 2016, tive contato com um rico material fotográfico que documentava o desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro. Grande parte das belas fotografias de autoria de Augusto Malta, então fotógrafo oficial do Distrito Federal, registravam a “Exposição Nacional” de 1908, ocorrida como um evento em comemoração ao primeiro centenário da abertura dos Portos do Brasil. Tal evento seguia na linha de outras grandes exposições realizadas pelo mundo com o objetivo de apresentar ao povo um panorama do desenvolvimento nacional. Os palácios e pavilhões construídos para o evento na região da Urca apresentaram, durante os três meses do evento, uma variada programação cultural. A exposição e seus prédios foram visitados por cerca de um milhão de pessoas, sendo a mostra quase toda demolida após o encerramento.
Optei, de início, por não ir além dos breves textos aos quais tive acesso, para poder adentrar nessa breve paisagem apenas pelos rastros dela. Como o olhar de um estrangeiro que tateia momentos históricos desconexos da linearidade dos fatos e baseado apenas nas fotografias que congelam os instantes sem, entretanto, reter a memória em toda a sua complexidade sensorial. O que mais me atraiu sobre a história da “Exposição Nacional” foi o seu caráter efêmero, como tudo foi construído e destruído tão rápido. Os palácios suntuosos não tiveram o tempo merecido para criar uma memória duradoura na cidade, sendo desconhecidos de muitos. Palácios vitoriosos lavrados em branco, sintomas de um Brasil otimista pareceram e sumiram rapidamente na cidade como castelos de areia. Persistiram um tempo na memória das pessoas que lá estiveram e andaram pelos seus corredores e avenidas. Espaços pelos quais não podemos mais caminhar.
Ver nas fotos os trajes finos das pessoas que hoje são borrões nas fotografias, especular sobre as histórias, ouvir os sussurros das conversas, imaginar os jogos de poder e a rotina dos trabalhadores que ergueram as edificações e serviram aos visitantes, tudo serviu de substrato paras as pinturas, que, de modo análogo às memórias, guardam espaço para a edição e para a criação de novas imagens, nem sempre condizentes com o que foi. Os palácios ainda encontram abrigo nos espaços da memória e na pintura. Lugares que não podem existir integralmente nos instantes endurecidos das fotografias, mas que subsistem nas lacunas existentes nas pinturas, nas frestas das pinceladas, entre uma camada e outra,
nos pentimentos que ainda respiram na superfície do plano pictórico. Como se o concreto dos prédios se tornasse poroso como os ossos, como os livros que não podem mais ser folheados, mas que ainda conservam sua carcaça de livro. O conjunto de trabalhos se instala na perda de densidade da memória. Memórias desconstruídas e afogadas em tinta escura. Por mais um momento plenas e abertas à visitação.
Alan Fontes, agosto de 2018.