Sala de Jogos

Curadoria de Manuela Parrino

Exposição individual do artista Heberth Sobral
22 de junho até 24 de agosto de 2024
Luciana Caravello Galeria de Arte Contemporânea [R. Mourato Coelho, 790 – Vila Madalena, SP]

“O homem só joga quando é, no sentido mais pleno da palavra, um ser humano, e só é plenamente humano quando joga.”
Educação Estética do Homem, Friederich von Schiller

Nessa primeira individual em São Paulo, Heberth Sobral novamente surpreende por sua inesgotável e talentosa capacidade de produzir arte refinada com leveza, humor e profundidade desconcertante. Há tempos definiu seu léxico a partir de elementos lúdicos, fazendo uso de brinquedos como os bonecos de Playmobil ou peças de Legos, construindo metáforas, fabulações, desconstruindo mitos ou tocando sutilmente nos desconfortos de nossa sociedade contemporânea.

Destacando quatro partes componentes de bonecos industrializados, a saber, boca, olho, cabelo e braços, reescreve signos como se fossem dialetos ancestrais. Inquieto e inovador, o artista quer registrar e difundir seu cotidiano deglutindo a realidade que o circunda. Dá vida ao que aparentemente não existe e flerta com distopias sem receio de excessos. Aliás, é com esse mesmo humor inato, no recurso de seu brincar, como bem disse o psicanalista inglês Donald Winnico, que o homem encontra sua identidade, o seu eu, potencializando a criação, dando vazão às emoções e superando adversidades. Sala de Jogos, título da exposição na Galeria Luciana Caravello, permite ao espectador flertar com toda essa experiência. Em meio a jogos de cartas, dominós, jogos de botões, álbuns de figurinhas, mini-golf, vídeos de tetris ou sorteios, Heberth reafirma que a arte não é domínio do óbvio, do literal, mas terreno da ousadia que ultrapassa a superficialidade.

A ocupação do espaço, o uso de materiais não convencionais e a intimidade com a cor, podem estar representadas por meio de montagens fotográficas, pinturas em acrílica de telas e madeiras, azulejos modelados, tijolos coloniais ou recursos digitais. Uma das obras centrais exibidas é seu “jogo-mobil” de xadrez. Composto por peças em cerâmica pintada, esculpidas com os elementos definidores de seu código, o artista revive a história da arte e relembra como esse tipo de ativação, ou de jogo, vai além de preciosidades intelectuais. Assim como para Duchamp, figura cara ao artista, o xadrez foi presença marcante na vida de Man Ray, com suas geometrizações euclidianas, ou “formas ideais”, na década de 1920, ou em Yoko Ono, nos anos 1960, com seu White Chess, onde tabuleiros e peças totalmente em branco, quando movimentadas, redefiniam completamente o propósito inicial do jogo. Vale ainda lembrar que artistas locais, em diferentes épocas, como Sergio Camargo, Ione Saldanha, Tunga, Walton Ho’man ou Abraham Palatnik , deixaram registros ao tema dentro de suas poéticasparticulares.

O historiador e linguista holandês Johan Huizinga e o sociólogo francês Roger Caillois elaboraram, na primeira metade do século XX, talvez a mais bem estruturada reflexão sobre a importância do jogo enquanto fenômeno cultural. Ao Homo udens, e não apenas ao Homo Faber, credita-se que “é no jogo e pelo jogo que a civilização surge e se desenvolve”. A palavra jogo sugere ideia de desenvoltura, risco, habilidade, estratégia, divertimento, disciplina, rigor,
imparcialidade e transparência. Com finalidade autônoma, em suas formas complexas, o jogo é repleto de ritmo e harmonia, e se desenrola em tempo e espaço definido. Palavras que usamos para definir o jogo se confundem com palavras que usamos para definir a estética, descrevendo os efeitos da beleza como equilíbrio, contraste, variação, solução, união e separação. Jogos são voluntários e só ocorrem enquanto jogadores querem jogar, acompanhando sentimentos de tensão e alegria. Suportam destreza, competição, cálculos probabilísticos. O jogo exige o uso de tempo livre, mas não apenas como “um passa tempo”. Absorve o jogador, física ou intelectualmente, ainda que virtudes e vícios possam ser os lados
de uma mesma moeda.

Para Hebert brinquedo não é maquete de uma sociedade e brincar, ou jogar, não representa uma idealização de um bem-estar coletivo, tão pouco entretenimento banal. Talvez como Schiller o artista espiritualmente intua, e manifeste na sua práxis, que sem o impulso lúdico, razão e emoção não se equilibrem na formação plena do homem. Cabe agora ao espectador atento interagir, se divertir e testar aqui suas convicções pessoais.

New York, maio de 2024
Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho
Presidente do Conselho do Museu de Arte do Rio de Janeiro – MAR-RJ.

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