Ex-Ótica

Exposição individual do artista Fernando Leite
31 de agosto até 26 de outubro de 2024

Uma meditação silenciosa, um paisagista, portanto

Fernando Leite pintou céus e nuvens durante a pandemia em 2020 e 2021. O mundo andava despoetizado à época, privado do mistério da beleza. Na ausência, tínhamos que sair à procura do belo para dar um descanso para a cabeça e para os olhos, mesmo que se quebrasse os protocolos impostos à época. Mas era uma necessidade sair em busca da vida que andava digitalizada e confinada entre quatro paredes. Para ver o mundo lá fora, restavam apenas as janelas. “Quando você sentir que o céu está ficando muito baixo, é só empurrá-lo e respirar”.

Da sua janela, do seu apartamento no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, via o céu e suas nuvens. Observou-as pacientemente. Depois as levou para a pintura e a pintura tornou-se necessária para a vida naquele momento, até mesmo para suportá-la. Se o mundo andava despoetizado, seria necessário então romantizá-lo novamente. Redescobrir a Terra, olhar insistentemente para o céu, contemplar as nuvens se movendo, restituir a dignidade do humano, do misterioso, do belo, do sublime, buscar o prazer de viver para observá-lo amorosamente. 

As pinturas não recebem um título narrativo, mas apenas o dia e o horário em que foram registradas em fotografia digital. Dá pistas do horário, geralmente ao final da tarde, momento em que o céu se torna mais dramático com o cair do dia (23 de maio de 2020, 17h11). Subjetivamente retrata o sentimento de melancolia que nos abate (todos aqueles que sentem um pouco mais) ao final de mais um dia, com a chegada da noite, ainda mais em meio a misteriosa pandemia provocada pelo vírus, devastador e desconhecido até então, que abateu sobre a humanidade naquele ano. Ficamos confinados em nossas casas por meses e não restava gesto mais confortador do que o que fez Fernando Leite, o de olhar para cima através das janelas, dos quintais, das ruas ou parques para os que atreviam quebrar o confinamento nas cidades e sair pelas ruas em gesto quase desesperado, o de encontrar outras pessoas que não resistiam ao isolamento.

Pintar céus e horizontes ou paisagens, em que se vê nuvens, pode ser um gesto ou ideia banal para a arte contemporânea, em que o resultado é sempre belo, sem dúvida, é como se vê nas pinturas de Fernando Leite. Foi algo fenomenal, e foi  necessário pintar nuvens. Nunca se viu na contemporaneidade dias tão bonitos de atmosfera limpa, de claridade infinita e iluminados como naqueles dias de confinamento. A luz do sol brilhou como nunca. E o azul do céu nunca foi tão vibrante. Pois não havia ar poluído. Não havia carros, ônibus e nem aviões poluindo os céus do mundo. As indústrias tinham parado de funcionar. Não se jogava fumaça no ar. A natureza de certo modo se recompôs. Parecia que nos indicava da sua regeneração diante de dias tão limpos e brilhantes, com nuvens brancas como nunca se viu nos últimos tempos. 

É o que retrata Fernando Leite, a beleza do mundo sob um outro prisma, mais uma vez o olhar do artista cheio de esperança olhando para os céus, florestas e plantas, mais precisamente, a Cannabis. Gênero de angiospermas que inclui três variedades diferentes, a Cannabis sativa, a Cannabis indica e a Cannabis ruderalis. Plantas que ajudam a sonhar e ver mais profundamente as paisagens e o mundo.

Pensar uma paisagem é pensá-la como um objeto natural, pensado e construído. O europeu vai começar a pensar e observar as paisagens apenas no século XIV. Outros povos já o fazia muito antes na África, na Ásia e também nas Américas. Na verdade, os povos nativos e ancestrais viviam dentro das paisagens, o mundo como paraíso formado de paisagens infinitas, que sempre esteviveram ali. 

Observar as nuvens ou refletir sobre elas como uma atividade contemplativa começou no final do século XVIII, quando iniciou-se um interesse pela natureza e suas manifestações fenomenológicas. Os seres divagantes que pensavam muito e refletiam sobre aquilo que viam, as paisagens celestiais e terrenas. 

“Cantar, dançar e viver a experiência mágica de suspender o céu é comum em muitas tradições. Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte prospectivo, mas um existencial”. 

“Se observamos o mar, vemos que as ondas se movimentam; e se somos geólogos, sabemos que as montanhas também”. Acrescentaria que, se contemplarmos as florestas, as matas ou as plantações (paisagens construídas), observaremos que estas estão sempre em transformação, em movimento. As verdadeiras nuvens não machucam e nem matam, pelo contrário, nas religiões cristãs são vistas pelos fieis como o “chão” do Paraíso. As nuvens seriam edificações e seria ali que o bom fiel que da sua vida terrena garantiria um pedacinho de céu para continuar na eternidade. 

Em geral as paisagens são belas, as que sempre existiram no mundo. Sempre a encher os nossos olhos se olhamos para o céu ou para a Terra com descanso, claro, para quem se permite contemplá-las. 

O que faz um artista pintor nada mais é do que observar, refletir e registrar as paisagens externas e internas. Na verdade, ele nada mais faz do que observar a existência das paisagens, mesmo as subjetivas que só ele enxerga. 

Um demorar-se no silêncio da observação do mundo. Um olhar incerto, uma paciência necessária, um crescimento lento de tudo que produz uma sensação de tempo especial…  Louvor à Terra, uma viagem ao jardim, o gesto de pintar plantas, pintar florestas, pintar nuvens que caem do céu e recobrem as matas de forma leitosa, diáfana, como visto nas duas pinturas, Névoa, de 2024, da exposição Ex ótica, da Galeria Luciana Caravello. 

Paul Cézanne, que era obcecado com a Sainte-Victoire de Montagne, sabia do segredo e de uma especial vivacidade e força dos campos. 

Pois a Terra não é um ser morto, sem vida e muda, mas um ser vivo eloquente, um organismo vivo. Mesmo a pedra vive, como a vista na tela Ver te: Corcovado, de 2024. A montanha que reina na paisagem do Rio de Janeiro, surge em meio à nevoa como uma entidade silenciosa, certa da sua majestade.

Fernando Leite venera o mundo. Ele o escuta e ouve suas paisagens. Suas florestas são um louvor para o céu e suas nuvens, para a Terra com seus rios e mares.

Pintar nuvens e florestas, é fazer paisagens atmosféricas, nada mais do que isso. É o ato consciente e inconsciente do ser humano de se sensibilizar particularmente pelas coisas simples da vida, como aquele gesto das crianças de se jogarem no chão e passar horas ali deitadas olhando para as nuvens.

O resultado são vinte e oito pinturas em que predomina a suavidade dos tons de azul, cor espiritual que nos dá a dimensão do que sentia o artista diante do que via. São de uma delicadeza profunda, serenas. Embora naqueles dias de pandemia centenas de milhares de vidas tenham sido ceifadas pelo vírus da covid. Sem o horizonte a nos lembrar que habitamos o chão do mundo, restava olhar para o céu na busca de encontrar amparo nas divindades que habitam o paraíso celestial, em um claro desejo de reconfortar-se ao encontrar o terreno eterno e pacífico sobre as nuvens. 

Era total a distopia. Passados quatro anos, a pandemia continua nos afetando fortemente. Muita gente adoeceu, não aguentou a pressão do isolamento e a iminência da contaminação e possivelmente, da morte causada pela doença. 

Seguir as nuvens era o que restava. Podem ser figurativas ao serem desenhadas no céu, essa grande folha de papel azul, que faz o infinito e a experiência estética, mas tinha função de salvação nas pinturas de Leite. Que continua pintando outras visões. Vislumbres, melhor ou cosmovisões das florestas, como a Floresta da Tijuca que fica bem ao seu lado no Rio de Janeiro. A Floresta Amazônica, muito distante ao norte, que se faz no seu pensamento, na sua imaginação e retratadas na série Igapós, de 2023-2024. 

Nada mais romântico, portanto, que o gesto (belo e melancólico ao mesmo tempo) de Fernando Leite, de pintar nuvens e florestas tomadas pela neblina e plantas alucinógenas que nos fazem sonhar mais ainda. 

Ricardo Resende

Curador 

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