Jean Araújo
22 de junho até 10 de agosto
Galeria Luciana Caravello
Rua Estados Unidos, 2169
É mineral a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas feitas de palavras
João Cabral de Melo Neto
Algumas paisagens parecem não pertencer a lugar algum. Outras insistem em definir as nossas próprias lembranças. Afinal, as paisagens conformam-se no intervalo entre aquilo que foi vivido e o que a memória, silenciosamente, reorganiza. Toda lembrança é uma montagem. Um fragmento deslocado de seu contexto original, aproximado de outros tempos, outras imagens, outras sensações. Assim também operam as obras produzidas por Jean Araújo para esta exposição. Nelas, a paisagem aparece menos como representação fiel do mundo visível e mais como condensação de temporalidades distintas.
Como uma ilha de edição, a memória recompõe o mundo incessantemente, produzindo geografias que jamais existiram exatamente daquela forma, mas que permanecem verdadeiras para quem as carrega. No caso do artista, o tempo delimita seu fluxo e convoca continuamente a sensação das experiências vividas. Sejam as lembranças na caatinga da infância, a interação por quatorze anos com o bioma do Rio de Janeiro ou a convivência atual com a zona de transição entre Mata Atlântica e cerrado, as memórias se atravessam, dissolvendo fronteiras espaciais e cronológicas. O que emerge não é a lembrança estática de um lugar, mas a agência de muitos territórios dentro de uma mesma imagem.
Talvez por esta razão as suas obras produzam uma sensação no observador, semelhante à da miragem. Algo parece se revelar diante dos olhos, tal qual um desejo pulsional que atrai o corpo inteiro para si, como um ímã. Montanhas, horizontes, nuvens, vegetações parecem aproximar-se da forma real, como sabemos na natureza. Mas, no instante seguinte, contudo, escapam. A imagem oscila continuamente entre presença e desaparecimento, entre nitidez e dispersão. O olhar busca inutilmente fixá-la, enquanto ela se recupera como uma aparição.
Milhares de círculos coloridos compõem cada trabalho. Repetidos um a um, em um gesto paciente e insistente, formando campos cromáticos cuja unidade jamais apaga a singularidade de cada elemento. Visualmente, o conjunto possui a coerência de uma paisagem. Sua matéria, entretanto, permanece fragmentária. Cada círculo pode ser imaginado como uma partícula de um momento. Não o tempo medido pelos relógios, mas aquele que se sedimenta na experiência. Um dia qualquer. Uma brincadeira que atravessou a tarde. Um machucado esquecido. Uma gripe passageira. A luz de um fim de tarde. Pequenos acontecimentos que, isoladamente, parecem insignificantes, mas que constituem a trama invisível da existência. Como as lembranças, esses fragmentos não permanecem organizados segundo uma sequência linear, mas se sobrepõem, retornando continuamente, e formam a espessura do vivido.
Entre aquilo que Jean constrói e aquilo que cada observador encontra funda-se um intervalo, um silêncio. É nessa pausa que as obras continuam a acontecer. Uma montanha pode surgir para alguém, enquanto outra pessoa reconhece um horizonte, uma vegetação distante ou a luminosidade de um céu prestes a desaparecer. As formas migram de um olhar para outro sem jamais se estabilizarem por completo. Como memórias, elas se recompõem a cada novo encontro. A paisagem não pertence à obra, nem ao artista, nem ao observador. Ela ocorre provisoriamente, como hiato, entre os três.
Nas obras, o que insiste em parecer nunca atua por meio da estabilidade. Ao contrário, é justamente a instabilidade que convoca a percepção de quem observa e ocasiona o estranhamento. A incidência da luz, a posição do corpo, a atmosfera do ambiente e a distância do olhar transformam continuamente aquilo que vemos. Em determinados momentos, as cores se intensificam e vibram; em outros, se dissolvem em uma névoa cromática. A paisagem escurece, clareia, se aproxima e se afasta. Assim sendo, cada trabalho permanece aberto e o rigor do processo construtivo não conduz a uma imagem encerrada em si mesma, mas a um campo de possibilidades perceptivas e afetivas. O observador é convocado a completar aquilo que vê, mobilizando suas próprias memórias, seus repertórios e suas experiências.
Por fim, o título escolhido pelo artista para esta exposição pode ser entendido ainda como uma pergunta dirigida ao processo criativo, mas também como uma resposta oferecida pelas obras. Jean Araújo constrói imagens que escapam de uma definição conclusiva. Ainda assim, alguma imagem retorna, insiste: uma linha de horizonte, uma montanha distante, um céu atravessado por luz, uma paisagem. Talvez porque certas imagens permaneçam habitando a memória muito depois de terem desaparecido do mundo, ou, simplesmente, por constituírem uma forma de experimentar o tempo como duração.
Shannon Botelho