Ricardo Villa
30 de abril a 6 de junho de 2026
Galeria Luciana Caravello
R. Estados Unidos, 2169 – Jardins, SP
Ricardo Villa transita entre a criação visual e a filosofia crítica. Considerando a arte um campo de reflexão, sua obra artística, de fatura meticulosa, articula discursos sobre diferentes disciplinas do conhecimento, como a história social, a economia ou a ciência política. Seu trabalho fundamenta-se em observações do desenvolvimento predatório do mundo moderno como um eco da própria decadência do pensamento ocidental. Sendo assim, toda sua produção pode ser compreendida mais como ferramenta dialética do que um mero objeto estético para a apreciação formal. Porém, o espectador não deve ter medo do que parece ser tão intelectual, pois nas criações de Villa o conteúdo denso se integra naturalmente às formas engenhosas, de cores austeras, das tramas, dobraduras e ornamentos recortados em papel-moeda, páginas de livros ou mapas antigos. Assim, o resultado alcançado é tanto visualmente elegante quanto conceitualmente profundo.
Com um bacharelado em Arte e Cultura Fotográfica, Ricardo Villa ingressou em 2025 no curso de Filosofia na Universidade de São Paulo. Seu trabalho, executado com rigor, evolve de uma ideia analítica do fato histórico. As peças reunidas nesta exposição, partem de categorias que operam na vida como se fossem naturais: a economia como instância dotada de vontade própria, o dinheiro como medida objetiva do mundo. Villa examina a constante transformação e incompletude de processos racionalistas cujos vereditos essencialistas são invenções do homem moderno do Ocidente, com seus delírios de superioridade especista.
As obras possuem uma dimensão filosófica que não se esgota na superfície da matéria ou da imagem. Por isso, a expressão título, “Isso não é Tudo”, é uma provocação, indicando que a historiografia é mais como um prisma com muitos vieses e camadas, do que uma narrativa linear e plana. Nesse sentido, os cortes infligidos sobre documentos funcionariam como uma revelação do que está para além das afirmações contidas nos escritos científicos e históricos, enquanto o artista questiona a quem servem, afinal, as verdades e protocolos inventados por poderes dominantes. Como chegamos até aqui, nessas sociedades regradas por tempo, taxas, capitais, ativos, e auto-devoração? Para Villa, a realidade humana é uma permanente tomada de consciência de si e do mundo.
Sobre os trabalhos apresentados, a série de desenhos Espectro# parte da imagem clássica do fantasma — “o lençol sobre uma figura com os braços erguidos, clichê da imaginação infantil. Se a racionalidade técnica e a filosofia política operam sob um aspecto de objetividade, aqui elas são submetidas a uma operação de colagem que reflete a escrita automática surrealista. Ao fragmentar textos de autores como David Hume, John Keynes, John Locke e Michail Bakunin, o trabalho retira desses enunciados o sentido ordenador de suas proposições, expondo-os como matéria histórica e contingente, e não como fundamento estável e/ou teleológico da realidade”.
Na série Ornamental/Lacuna, os trabalhos se estabelecem como “um contra-discurso, marcando a ambiguidade implícita na noção de progresso e, em especial, no modo pelo qual o discurso ideológico contribui para ocultar a barbárie na cultura. A materialização dessa crítica mobiliza artefatos em que a ideologia se cristaliza nos registros de viajantes, mapas coloniais, livros de história, pinturas históricas, fotografias e cédulas de dinheiro”. O título insipira-se no hoje polêmico texto do arquiteto e escritor austríaco Adolf Loos, Ornamento e Crime (Ornament und Verbrechen), de 1908. Nele, o autor discorre sobre a sua grande descoberta de uma suposta identidade do design da civilização européia moderna. Na sua tese, defendia que “a evolução da cultura equivale à remoção do ornamento dos objetos de uso cotidiano”, sendo ele um lastro de culturas atrasadas, rurais e aborígenes que devia ser suplantado.
Já em Contra Um, Villa indaga sobre que tipo de realidade a moeda brasileira — o Real — é capaz de mobilizar. “Que natureza ontológica um pedaço de metal cunhado pode ofertar como realidade? (…) Nesta operação, o ornamento atua como um diagrama, em que a repetição dissolve o valor individual da moeda em função da padronagem. Loos sentenciou o ornamento como crime, índice de atraso civilizatório e desperdício de capital, o trabalho, por outro lado, o mobiliza como recurso crítico”. A intervenção no interior da galeria — espaço em que o trabalho de arte se converte em mercadoria, e explicita uma conversão que é normalmente implícita. A galeria vende arte que vale dinheiro; neste caso, vende dinheiro que se converte em arte. Essa tensão entre crítica e mercado permanece visível como condição estrutural do trabalho.
Por último, Haikai é um trabalho que leva o nome da tradição japonesa que se fundamenta na justaposição de imagens ou ideias e um kireji (palavra que corta), entre elas. É um tipo de marca de pontuação verbal que sinaliza o momento da separação e destaca a maneira pela qual os elementos justapostos são relacionados. “O Haikai é um tipo de poesia que não pretende a determinação total de seu objeto: se deixa aberto. Ao transpor essa premissa para a visualidade dessa série, o procedimento assume uma dimensão reflexiva: o livro, dispositivo orientado para construção e circulação de um saber do mundo, é submetido ao corte e se converte em uma “fatia de pensamento”. A mandala apresentada não se pretende uma totalidade, mas uma organização de fragmentos que constróem e tensionam a idéia de uma identidade nacional brasileira. Como forma, a mandala organiza o conjunto sem hierarquizá-lo, aponta para um centro sem estipular começo nem fim”.
A prática de Ricardo Villa teve início nos anos 2000, quando artistas jovens pensavam a coletividade, o espaço urbano, a rebeldia institucional e a autoria diluída como estratégias para desafiar a hegemonia de um pequeno mercado. Hoje, contudo, o sistema da arte se tornou robusto no Brasil, e o modus neoliberal centraliza o indivíduo, capitalizando sobre quaisquer pautas de lutas. Assim, produzindo fora das tendências hegemônicas, Villa prefere escrutinizar a dúvida e questionar certezas, entretido com o que atravessa as aparências do sistema da arte sem depender de modismos fugazes.
Daniela Labra