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Texto por Theo Monteiro

21 de março até 05 de maio de 2024
Luciana Caravello Galeria de Arte Contemporânea [R. Mourato Coelho, 790 – Vila Madalena, SP]

Desenhar é, por excelência, sintetizar uma ideia. Construir, através da representação gráfica, a sua essência. Não à toa, ao contrário da pintura e da escultura, o desenho é amplamente explorado também fora do campo artístico, de projetos arquitetônicos até mapas conceituais. A compreensão da estrutura primacial das coisas passa, em sua visualização, por essa linguagem. Na poética de Marcelo Solá, o desenho aparece carregado e conformando incontáveis símbolos e signos. Um olhar menos detido pode, inclusive, deixar passar sua carga “desenhística”. Sob o traço de nosso artista, a linha ganha uma fenomenal independência, se lambuzando de toda a sorte de grafismos, arranjos e coloridos espalhados pelo mundo que nos rodeia.

Tudo começa pelo logo de sua editora, a antológica Grafisch Atelier Hidrolands. Aqui o impulso desenhístico de Solá atinge outro patamar. Numa prática correlata ao seu trabalho artístico, nosso desenhista desenvolve uma editora de livros de artista, na qual empresta seu vasto conhecimento gráfico em prol de elaboradas publicações, tal como no passado ocorria com as casas impressoras germânicas e batavas dos Séculos XVII e XVIII. A identidade visual de seu estúdio é composta de um sólido brasão, constituído por elegantes linhas, na qual estão estampados nobres animais, de apurada volumetria, como se tivessem saído diretamente da heráldica seiscentista. No meio do escudo, ve-se, em tipografia
classicizante, os escritos: Grafisch Atelier Hidrolands. Tudo, a princípio, converge para algo histórico, de muitos séculos atrás. Mas Solá habita nosso século, e, fascinado que é pelas possibilidades da criatividade, promove um embaralhamento temporal. O uso do idioma batavo, bem como das formas arcaicas, é uma peça que o mesmo nos prega. O coelho regiamente sentado sob o topo do letreiro, a rincípio quase renascentista, está fumando um cachimbo e usando um jocoso óculos escuros, como nos melhores memes contemporâneos, no qual o vencedor de algum debate polêmico aparece trajado com o referido adereço, sinônimo do êxito de sua vitória. O cruzamento de temporalidades presente nesse curioso escudo, que se vale de um desenho renascentista, é um bom exemplo daquilo que está no radar poético de Marcelo Solá. Seus trabalhos passam longe da economia visual ou de qualquer tipo de funcionalismo. Vivemos tempos cacófonos. No auge da era da publicidade, somos bombardeados dia e noite por estímulos visuais. Dormimos e acordamos com as imagens. Viajamos com elas. O acesso a ela nunca foi tão fácil e o seu consumo (e descarte) nunca foi tão acentuado.

Para serem consumidas, elas precisam ser atraentes, e, por essa razão, em geral vêm carregadas de estímulos que jogam com as nossas mais íntimas percepções. Nosso artista sabe muito bem disso. Seus trabalhos têm densidade. Cores vibrantes, acúmulos de toda a natureza, garatujas, rabiscos e manchas. Mesmo as tintas, quando empregadas, são aquelas de secagem rápida, como o spray e o esmalte. Não existe muito tempo de pausa entre um elemento e outro. Um rosto rapidamente começa a se converter numa arquitetura. Um grande edifício vira uma letra. Algarismos começam a se diluir em manchas. Linhas tortuosas formam um inconclusivo volume. Não interessa, para Marcelo Solá, a imagem parada, lenta, aquela do lento tempo de secagem da tinta a óleo. Sua percepção do tempo contemporâneo é veloz. Não à toa, prefere técnicas como a serigrafia, mais mecânicas, cujo objetivo primacial era o de reproduzir imagens em grande quantidade (e consequentemente maior velocidade).

Seu trabalho pode nos remeter ao ambiente urbano, dada a enorme quantidade de signos e símbolos, e quase símbolos e quase signos, ali presentes. Mas Solá não olha apenas para a cidade. Existe ali algo anterior, quase ancestral. Grafismos estranhos, sugestões arquitetonicas, manchas indefinidas, figuras quase totêmicas. Nosso artista, em sua pesquisa, parece buscar sintetizar uma forma de ser, de se comunicar. Contemporânea? evidentemente, mas não é só o agora que o interessa, existe também uma curiosidade (aliada a um respeito) sobre aquilo que veio antes, e que consequentemente nos tornou assim. Até porque, ao contrário dos dias atuais, em que parte da arte, contaminada por uma atmosfera altamente publicitária, parece estar preocupada em passar mensagens extremamente diretas e quase didáticas, o trabalho de Solá não passa qualquer mensagem óbvia. Existe uma aparência cartunesca em sua obra, que, aparentemente nos conduz para uma narração, mas essa narração não se completa. Falamos de um trabalho em que se acumulam quase seres, quase letras, quase casas. Mas no final elas ficam no meio do caminho. Solá traz para seus desenhos e serigrafias a essência das coisas e as embaralha.

Dada a velocidade com que a informação caminha, natural que muita coisa se perca pelo caminho. Marcelo Solá vai por aí catando o que sobrou e construindo um corpo de trabalhos que, se não tão direto, parece sintetizar perfeitamente um jeito de se comunicar

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